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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O EFEITO CANNABIS SATIVA

               O EFEITO CANNABIS SATIVA
                          Carlos Machado

Raimundo Filomena, carinhosamente chamado de Mundin, nunca foi afeito a exageros. Desde a adolescência manteve-se avesso a arroubos. Trabalhador, honesto e pau para toda obra, não se esforçou para estudar, até porque naqueles tempos era artigo de luxo, somente famílias ricas podiam botar os filhos na escola. A família dele foi pobre de gritar de noite, mas sem passar dificuldades nas necessidades essenciais. De forma que o protagonista só aprendeu a ler, a escrever e a tirar umas contas, o que era suficiente para ser bem visto, segundo Ele.
Crescido, virou falante. Gostava de se intrometer nas rodas de conversa e dar pitacos nos mais variados assuntos, alegava ser um sujeito informado, ouvinte da Voz do Brasil. E assim, tomou gosto pela política. Ouvia, atentamente, os discursos e não perdia um comício em ano eleitoral. Ia para todos, não importando de quem era: se situação ou oposição.
Numa dessas, numa da tarde de sábado, de sol escaldante, se socou na carroceria de um caminhão e partiu para uma reunião política na zona rural. Caminhão lotado, estrada ruim, buraqueira e o gingado dos corpos, o agarra-agarra para não cair. Quem conseguia se sentar ficava com o “fundo” sujo, quem não tinha a mesma sorte chegava de corpo mole, todo quebrado. Mas, para o protagonista isso não importava e sim o discurso dos homens.
Chegou em Monte Agudo, já quase escurecendo. Logo, tratou de arrumar uma cacimba, pois precisava de um banho. Meteu os braços a puxar água, encheu uma tina de pneu que ficava no banheiro de palha de pindoba, por trás de uma das casas da localidade. Corpo refrescado, se arrumou escondido numa “bolota” de mato, em cima de um pedaço de tábua, para não sujar os pés. Brilhantina no cabelo, desodorante 1010 no pescoço e lá se vai, todo serelepe, ouvir a conversa dos políticos.
Não era devoto de cachaça e nem de fumo. Mas, vez por outra, tomava um gole e dava uma tragada num cigarro “arapiraca” ou num gaivota, que estava na moda. Lá pela metade da hora de terminar o comício, Zé Praxedes, companheiro de viagem, ofereceu uma cachaça “braba”, dizendo ser coisa bem-feita e que podia beber, pois não queimava e nem deixava catinga. E Mundin emborcou um quarteirão. Ficou zonzo, sentindo o corpo pegar fogo. Mas, atento aos cabras no palanque que estavam metendo a peia nos adversários e prometendo até anum preto.
Já no fim da reunião, quando o último orador se preparava para a despedida, mais uma dose de cachaça, no bucho do nosso ouvinte, e um cigarro que foi oferecido e fumado, pacientemente. As palmas comiam frouxas e o já “queimado” Raimundo Filomena estava mais eufórico que de costume.
Pois, bem! Terminada a confraternização política, como diziam os discursantes, ora do retorno. Algazarra e corre-corre sempre acontece nesses eventos quando é anunciada a saída do transporte. E a comitiva apressada procura lugar para melhor acomodação.
Mundin, depois de tanto rir sem motivo aparente, se embrenhou em direção oposta aos companheiros de viagem e meio desequilibrado, perna dentro, perna fora, terminou por perder o rumo de onde estava o caminhão. Seguindo na escuridão, de meter dedo no olho, já ia adentrando numa mata de cocal quando o farol do carro deu nele, no que foi visto por Praxedes, que o gritou: - Mundin, tá ficando doído? Tá indo assim pra onde? Não vê que já estamos de saída? E desceu do caminhão para buscar o amigo que parecia ensandecido entrando na mata.
Sem força nas pernas teve que ser trazido a tira colo, pois o homem não se segurava mais em pé. A todo custo foi rebolado na carroceria do caminhão, onde encostado na grade balbuciava palavras desconexas. Nunca se tinha visto Raimundo Filomena, um homem culto, falante, reconhecido nas rodas da sociedade, numa situação vexatória como aquela. Todos os que o conheciam queriam entender o que tinha havido. Foi a cachaça? Foi o cigarro gaivota? que tipo de emoção deixara nosso protagonista naquele estado tão deplorável?
Depois de muitos sacolejos, por causa da estrada vicinal esburacada, e de algumas tossidas, Ele acordou. Ainda zonzo, respirou fundo, deu uma calibrada na garganta para disfarçar e fingir que estava bem. Endireitou as pernas, que estavam imprensadas, e tocou em algo resistente. Passou a mão e percebeu que era um paneiro. Forçou no canto, abriu uma pequena brecha, meteu os dedos e trouxe o produto: farinha de puba. Com a fome “braba” que revirava o estomago começou a jogar “muxeadas” na boca, disfarçadamente.  Quase dois quilos de farinha e a sede apertou. - Água, água, água, pediu. Mas, ninguém tinha o líquido precioso! Com a garganta seca, entalado e o “bucho” inchando, resolveu apelar para Deus! E, depois das lamúrias e apelos ao divino, resolveu interpelar o amigo Praxedes:
- Oh! Praxedes, me diga, que cachaça maldita foi aquela que me ofertou, homem? Quase que via a morte!
O amigo coçou a cabeça, passou a mão na barbicha e numa voz gutural, quase inaudível, respondeu:
-Acho que isso aí não foi a cachaça, foi o cigarro de maconha!

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