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sábado, 19 de dezembro de 2020

RATOS, MORTES E CAOS: REVOLTA DA VACINA, A REBELIÃO QUE MUDOU A SAÚDE DO BRASIL

 

Em tempos de pandemia e com a possibilidade do acesso a vacinas, a discussão sobre a aplicação, eficácia e, até mesmo, questões que saem do âmbito sanitário, se tornaram pautas de debates sociopolíticos acalorados no auge da disseminação do novo Coronavírus. Porém, se engana quem acredita que tal discussão é inédita.

No início do século 20, três graves doenças foram capazes de acarretar epidemias que chegavam a espalhar corpos pelas ruas das principais capitais do país.

Além de ser terrível na infecção humana, eram proliferadas com ainda mais força graças a grande quantidade de lixo acumulando nas ruas.

No Rio de Janeiro, especificamente, a presença de ratos e mosquitos como transmissores acarretavam em milhares de mortes. Sem a possibilidade de realizar uma limpeza total nas ruas, a iniciativa governamental e mais rápida para frear o aumento de casos seria a implementação forçada da Lei de Vacinação Obrigatória — suficiente para causar um dos maiores distúrbios na história do país.

Estoura a Revolta

Havia alguma coisa diferente no ar naquela manhã abafada e úmida de 13 de novembro. Nos últimos dias, boatos haviam tomado os bares, as conversas em família depois que estudantes e operários saíram em passeata pelo centro do Rio de Janeiro, gritando palavras de ordem e protestando contra o governo do presidente Rodrigues Alves.

Mas nem quem acompanhava de perto as notícias podia prever os acontecimentos que se seguiriam. De repente, sem que parecesse haver qualquer organização, grupos de pessoas começaram a chegar ao centro.

Tomaram as ruas do Ouvidor, da Quitanda, da Assembleia e, quando chegaram à praça Tiradentes, já eram milhares. "Abaixo a vacina", gritavam. O comércio baixou as portas e a polícia chegou. A multidão respondeu em coro: "Morra a polícia", sendo correspondida com tiros e cacetadas.

A cidade do Rio não tinha nada de maravilhosa. Entre 1872 e 1890, a população passou de 266 mil para 522 mil pessoas. Não havia emprego para todos e a maioria se virava como podia: carregava e descarregava navios, vendia tranqueiras, fazia pequenos serviços. É claro que ainda havia entre eles ladrões, prostitutas e trambiqueiros.

Os pobres moravam em cortiços. O mais famoso deles, o Cabeça de Porco, no número 154 da rua Barão de São Félix, chegou a ter 4 mil moradores. "As autoridades consideravam os cortiços antros de doenças e de pouca-vergonha.

Para a mentalidade da época, que aliás não mudou muito, as moradias pobres abrigavam as classes perigosas, sujas, de onde saíam as epidemias e toda sorte de ruindade", diz o historiador Sidney Chalhoub, da Unicamp, autor de Cidade Febril: Cortiços e Epidemias na Corte Imperial.

Tanta gente concentrada em condições miseráveis era um berçário de doenças. E a situação tinha consequências drásticas que iam além da saúde pública. Por causa da imagem de ser reduto de doenças, navios estrangeiros se recusavam a aportar no Brasil.

E a fama não era injustificada: em 1895, o navio italiano Lombardia, atracado no Rio, perdeu 234 de seus 340 tripulantes, vítimas de febre amarela. Companhias europeias faziam questão de anunciar viagens diretas à Argentina, garantindo aos interessados que seus navios passariam ao largo da costa brasileira. Uma tragédia para um país que vivia da exportação.

Quando Rodrigues Alves assumiu a presidência em 1902, prometendo trazer o país para o novo século, viu naqueles cortiços um obstáculo a ser removido. Inspirados nas recentes reformas de Paris, sob a tutela do Barão Hausmann, os cortiços teriam que sair, as avenidas, entrar.  

Medo de injeção

Mas, para combater as doenças que abatiam os cariocas, não bastariam as reformas urbanas no centro da cidade. Mais uma vez apoiando-se no exemplo francês, o governo brasileiro apostou nas técnicas de saúde pública que estavam sendo colocadas em prática por médicos como Louis Pasteur.

Para apoia-lo nessa área, Rodrigues Alves convocou um jovem médico do interior de São Paulo que acabara de estagiar em Paris, Oswaldo Cruz

Assim que assumiu a diretoria de Saúde Pública, em 1903, Oswaldo encarou batalhas contra a peste bubônica e formou brigadas sanitárias que saíram pelo centro da cidade caçando ratos pelas casas e ruas.

Chegou a adotar o método pouco ortodoxo de comprar ratos, para estimular a população a caçar o roedor. Apesar das inevitáveis fraudes, houve gente que foi presa por criar ratos para vender às autoridades, a campanha contra a peste foi um sucesso.

Para enfrentar a febre amarela, no entanto, Oswaldo encontrou oposição. Nem o combate aos mosquitos era consenso. Na época, não se sabia que a doença era causada por um vírus nem se conhecia seu mecanismo de transmissão, e, embora o cubano Carlos Finley já houvesse publicado sua tese de que a doença era transmitida por um mosquito, um grande número de médicos brasileiros acreditava que a febre amarela era causada por alimentos contaminados.

Em 1904, seria a vez de combater a varíola. "Já havia leis que tornavam obrigatória a vacinação desde 1884, mas essas leis não pegaram", diz José Murilo. O governo resolveu, então, fazer uma nova lei obrigando toda a população a se vacinar, em novembro de 1904.

O projeto, que permitia que os agentes sanitários entrassem na casa das pessoas para vaciná-las, foi aprovado na Câmara e no Senado, mas não sem antes quase levar aos sopapos os partidários de Rodrigues Alves e seus opositores, que não eram poucos.

Entre eles havia os partidários do ex-presidente Floriano Peixoto, que não se conformavam com um governo civil, como o senador (e tenente-coronel) Lauro Sodré e, na Câmara, o major Barbosa Lima. O senador Ruy Barbosa se manifestou, em plenário, dizendo: "Assim como o direito veda ao poder humano invadir a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme".

Com a querela política, o assunto chegou à imprensa. Os jornais se dividiram: o Commercio do Brazil, do deputado florianista Alfredo Varela, e O Correio da Manhã, de Barbosa Lima, atacavam a vacinação, enquanto o diário governista O Paiz defendia a ideia com unhas e dentes.

Logo, não se falava em outra coisa no Rio. Os representantes dos trabalhadores não concordavam com a nova lei, que, entre outras coisas, exigia o atestado de vacina para conseguir emprego, e criaram a Liga Contra a Vacina Obrigatória, que em poucos dias arregimentou mais de 2 mil pessoas.

Pudores e violência

Pela lei, os agentes de saúde tinham o direito de invadir as casas, levantar os braços ou pernas das pessoas, fosse homem ou mulher, e, com uma espécie de estilete (não era uma seringa como as de hoje), aplicar a substância. Para alguns, isso era uma invasão de privacidade e, na sociedade de anos atrás, um atentado ao pudor.

Os homens não queriam sair de casa para trabalhar, sabendo que suas esposas e filhas seriam visitadas por desconhecidos. E tem mais: pouca gente acreditava que a vacina funcionava. A maioria achava, ao contrário, que ela podia infectar quem a tomasse. 

Uma população pobre, ignorante e sob o risco de perder as casas, ofendida agora em seus mais íntimos pudores; uma imprensa ateando fogo; políticos apoiando. Estava dada a receita e a panela de pressão já apitava. Voltemos àquela manhã de novembro.

Quando deixamos 1904, policiais e a população trocavam tiros e pauladas pelas ruas do centro da cidade. O corre-corre foi grande a multidão se dispersou, deixando o centro para se reunir mais além, nos bairros populares. Naquele 13 de novembro, houve confusão no Méier, Engenho de Dentro e Andaraí. Vinte e duas pessoas foram presas.

Mas o pior estava por vir. No dia seguinte, logo cedo, grupos aparentemente desarticulados vindos dos bairros rumaram para o Centro. No caminho viraram bondes, derrubaram postes de iluminação, reuniram entulho no meio das ruas e se prepararam para enfrentar a polícia.

No bairro da Saúde, próximo ao porto, a barricada reuniu 2 mil pessoas, segundo relato do Jornal do Commercio, que chamou o lugar de Porto Arthur, em alusão a um forte na Manchúria, onde japoneses e russos travavam uma sangrenta batalha.

Liderados entre outros por Horácio José da Silva, o Prata Preta, os defensores de Porto Arthur estavam armados com revólveres e navalhas. Alguns marcharam com armas nos ombros e se espalhou que tinham até um canhão.

Por três dias conseguiram repelir a polícia, mas no dia 16 o Exército, apoiado por tropas de São Paulo e Minas Gerais, invadiu o local, numa ação que contou ainda com bombardeios da Marinha. O suposto canhão era um poste deitado sobre uma carroça.

No dia 14, enquanto o pau ainda comia nas ruas, a confusão chegou aos quartéis. O esforço conspiratório que duraria o dia todo começou logo cedo. O senador Lauro Sodré e o deputado Alfredo Varela reuniram-se no Clube Militar com a cúpula dos militares. No entanto, o ministro da Guerra, marechal Argollo, conseguiu melar o encontro e mandou todo mundo para casa.

À noite, uma parte dos conspiradores tentou tomar a Escola Preparatória do Realengo, mas não conseguiu. Outro grupo, liderado pelo próprio Sodré, invadiu a Escola Militar da Praia Vermelha e convenceu cerca de 300 cadetes comandados pelos generais Silva Travassos e Olímpio Silveira a marcharem rumo ao Palácio do Catete.

Lá, deram de cara com cerca de 2 mil homens leais ao governo. Houve tiroteio, Lauro Sodré desapareceu, mas o general Travassos foi ferido e preso. Saldo da quartelada: três golpistas mortos e 32 soldados feridos.

Nas ruas, a batalha só terminou no dia 23, quando o Exército tomou um dos últimos núcleos da revolta, o morro da Favela. Pelos cálculos do historiador José Murilo de Carvalho, durante toda a revolta foram detidas 945 pessoas, sendo que 461, todas com antecedentes criminais, foram deportadas para locais distantes como o Acre e Fernando de Noronha. Não há estatísticas oficiais, mas acredita-se que 23 pessoas tenham morrido, segundo as estimativas dos jornais da época, e pelo menos 67 ficaram feridas.

A vacinação obrigatória foi suspensa. Mas o governo manteve a exigência de atestado para casamentos, certidões, contratos de trabalho, matrículas em escolas públicas, viagens interestaduais e hospedagem em hotéis. Nem todos esses cuidados, no entanto, impediram um novo surto de varíola. Em 1908, quando a cidade do Rio de Janeiro registrou quase 10 mil casos, o povo fez fila, voluntariamente, para se vacinar.

Fonte: AH


sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

QUASE 70% DAS VÍTIMAS DE TRABALHO INFANTIL SÃO PRETAS OU PARDAS, DIZ IBGE

 O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta quinta-feira (17) dados que mostram que quase 7 em casa 10 vítimas de trabalho infantil no Brasil são pretas ou pardas. As informações são da Folha.

De acordo com a pesquisa, em 2019, elas eram 66,1% entre os que trabalhavam até os 17 anos, uma alta em relação aos 64,8% de 2018. Houve uma redução de 16,8% do trabalho infantil entre 2017 e 2019, mas, apesar da melhora, 1,8 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos ainda trabalhavam no ano passado. Esse número corresponde a 4,6% da população nessa faixa etária, contra 5% de 2018.

É considerado trabalho infantil toda atividade econômica ou de autoconsumo perigosa ou prejudicial à saúde e desenvolvimento mental, físico, social ou moral das crianças, e que interfira na sua escolarização.

Quanto às atividades de autoconsumo, elas envolvem quatro conjuntos de trabalho: cultivo, pesca, caça e criação de animais; produção de carvão, corte ou coleta de lenha, palha ou outro material; fabricação de calçados, roupas, móveis, cerâmicas, alimentos ou outros produtos; e construção de prédio, cômodo, poço ou outras obras de construção.

O trabalho infantil afeta as taxas de frequência escolar de crianças e adolescentes, segundo o IBGE. Enquanto 96,6% dos jovens entre 5 e 17 anos declaram frequentar a escola, os que trabalham somam 86,1%.

Segundo a legislação brasileira, até os 13 anos é proibida qualquer forma de trabalho. Entre 14 e 15 anos, é permitida apenas a forma de aprendiz. Entre os 16 e 17 anos, o trabalho é permitido, desde que com carteira assinada e vedados o trabalho noturno, insalubre e perigoso.

Fonte: Isto É

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

DE 'MARIA VAI COM AS OUTRAS' A 'DOR DE COTOVELO': A ORIGEM DE 10 EXPRESSÕES FAMOSAS

 1. Maria vai com as outras

De acordo com o pesquisador Brasil Gerson, autor de História das Ruas do Rio, a expressão tem origem no início do século 19, com a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro. A mãe do rei João VI, a rainha Maria I, costumava passear às margens do rio Carioca, no antigo bairro de Águas Férreas.

Acontece que Maria I era conhecida por sua insanidade mental (manifestada após a morte do filho e da Revolução Francesa), tanto que era tratada como “A Louca”. Como ela ia passear levada pelas mãos de suas damas de companhia, o povo dizia: “Maria vai com as outras”.

2. A cobra vai fumar

Surgiu como slogan da Força Expedicionária Brasileira, constituída em 1943 para lutar na Europa, durante a Segunda Guerra. Era uma resposta à descrente opinião pública da época, que dizia que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra.

A partida para a Itália só ocorreu em junho de 1944. Mas o ceticismo pairava no ar desde 1942, quando o presidente Getúlio Vargas anunciou que o Brasil não se limitaria ao fornecimento de materiais nem à expedição de contingentes simbólicos. Além de adotar o irônico slogan, a FEB editou um periódico que se chamava ...E a Cobra Fumou!

3. Quebrar o galho

Quando alguém nos ajuda a resolver um problema, dizemos que essa pessoa nos "quebrou um galho". Existem duas versões diferentes para explicar a origem desse regionalismo tão usado no Brasil.

Um dos significados da palavra galho é “conjunto de riachos que se reúnem para formar um rio”. Assim, para os viajantes, “quebrar um galho” significa abrir um caminho em um afluente de rio para desembocar de forma mais rápida no rio principal.

4. Dor de cotovelo

expressão, incorporada pelos dicionários de língua portuguesa, se difundiu graças ao sambista Lupicínio Rodrigues. Lupe, como era conhecido, foi um mulherengo incorrigível. Usou suas diversas desilusões amorosas como inspiração para compor.

Ele costumava classificar sua dor de cotovelo em três categorias, conforme a intensidade: a federal, que sempre acabava em um porre; a estadual, suportável; e a municipal, que não rendia sequer um samba. Praticamente todos os sambas de Lupe mencionavam a 'dor'.

5. Enfiar o pé na jaca

Não é nenhum segredo, enfiar o pé na jaca quer dizer tomar uma carraspana, ficar de pileque, ser um borrachão. Ainda que em algum lugar alguém deva ter enfiado o pé na grudenta e descomunal fruta, a origem da expressão não tem nada a ver com algo que você possa comprar na feira livre.

Originalmente era ‘‘enfiar o pé no jacá”, com acento. Jacá vem tupi aya’ka e era um cesto feito de bambu ou cipó. Ele era usado preso no lombo de animais de transporte de carga no Brasil colonial, entre os séculos 17 e 18.

Em suas viagens, quando os tropeiros paravam em bodegas de beira de estrada e exageravam na bebida. Na hora de subir de volta no burrico, quem saía trançando as pernas podia enfiar o pé no jacá, passando o maior vejame, ultraje, opróbrio, carão. 

6. Com os burros n’água

Designada quando alguém faz esforço para conseguir algo e se dá mal, a frase vem dos tempos do Brasil colonial, que, entre os séculos 17 e 18, viu a necessidade de escoar ouro, cacau e café entre o Sul e o Sudeste e adotou a ideia dos colonizadores espanhóis, que transportavam entre Potosí (Bolívia) e Porto Belo (Panamá) cargas sobre burros ou mulas.

Era comum os condutores das tropas enfrentarem caminhos torturantes. Muitas vezes davam, literalmente, com os burros n’água — em travessias alagadas onde os animais morriam afogados. Como o dono da mercadoria arcava com o dano, a locução passou a ser empregada sempre que alguém leva a pior.

7. As paredes tem ouvido

Tanto ocidentais quanto orientais concordam com a expressão que alerta para os perigos de sermos escutados sem saber. O dito existe, nessa mesma forma, em línguas como alemão, francês e chinês. Sua origem remonta a um antigo provérbio persa que dizia: “As paredes têm ratos, e ratos têm ouvidos”.

Um dos primeiros registros de provérbio semelhante em inglês aparece no clássico medieval The Canterbury Tales, escrito por Geoffrey Saucer entre 1387 e 1400. Saucer descreve algo como “aquele campo tinha olhos, e a madeira tinha ouvidos” em um dos contos.

A expressão ganhou um sentido quase literal, que pode ser testemunhado até hoje em castelos medievais e, principalmente, palácios renascentistas. Muitos deles – como o Palácio dos Doges, em Veneza, Itália – escondem dutos e aberturas pelas paredes, construídas na época para possibilitar a audição, em outras salas, de encontros políticos a portas fechadas.

8. Fazer uma vaquinha

O ato de juntar algumas pessoas para coletar um dinheirinho passou a ser conhecido como “fazer uma vaquinha” no século 20 por causa do futebol. Nas décadas de 20 e 30, quase nenhum jogador de futebol ganhava salário – luxo só garantido aos atletas do Vasco da Gama.

Nesses tempos bicudos, muitas vezes a própria torcida reunia-se a fim de arrecadar, entre si, um “prêmio” para agraciar os craques. A grana era paga de acordo com o resultado obtido em campo. Os valores dessas “bolsas” associavam-se aos números do jogo do bicho, loteria criada nos fins do Império.

Se arrecadassem 5 mil réis, por exemplo, chamavam o prêmio de “um cachorro”, já que 5 é o número do cachorro no jogo. Dez-mil réis eram “um coelho”. Quinze mil réis, “um jacaré”. Vinte mil, “um peru”. Vinte e cinco mil, o prêmio máximo, era chamado de “uma vaca”. Nascia a expressão “fazer uma vaquinha”.

9. Arranca-rabo

Sinônimo de briga, confusão, escândalo, a expressão tem origem em Portugal. Mas os fatos que a inspiraram remontam às guerras da Antiguidade. Segundo Deonísio da Silva, professor de Letras da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, os guerreiros egípcios adotaram a prática de decepar a cauda dos cavalos das montarias inimigas para provar aos súditos a vitória em uma batalha.

“Um oficial do faraó Tutmés III (1504-1450 a.C.) chegou a registrar em suas escrituras a glória de ter arrancado o rabo do cavalo do rei adversário”, escreve ele no livro De Onde Vêm as Palavras.

O apreço pelo troféu inusitado durou milênios, chegando às terras lusitanas e, depois, ao Brasil. Aqui, os cangaceiros cortavam o rabo do gado de fazendas, para humilhar seus proprietários durante as invasões.

10. Segurar vela

Quando não existiam as lâmpadas – que podiam ser alimentadas por óleo de baleia ou gás –, as velas eram a principal fonte de luz. Por isso, na Idade Média, os iniciantes em todo tipo de trabalho braçal seguravam velas para que os mais experientes enxergassem o que faziam. Em teatros e outros lugares que funcionavam à noite, por exemplo, havia garotos acendedores de vela.

Em francês, uma das explicações da expressão (“tenir la chandelle”) se refere a criados que eram obrigados a segurar os candeeiros durante as relações sexuais de seus patrões e se manter virados de costas para não ver o que acontecia.

Entre 1500 e 1600, “segurar vela” passou a significar “ajudar em uma posição subordinada, desconfortável”. Com o tempo, serviu para designar a amante de um triângulo amoroso, e, mais recentemente, o amigo solteiro que acompanha um casal.

Fonte: AH

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

MACHU PICCHU FECHA ATÉ FIM DE PROTESTOS QUE AFETAM SERVIÇO DE TRENS

A cidadela inca de Machu Picchu, joia do turismo peruano, permanecerá fechada até que terminem os protestos de moradores que bloquearam a linha férrea, afirmou nesta terça-feira (15) o diretor do parque arqueológico, José Bastante.

"A reabertura acontecerá quando for resolvida a situação" dos protestos dos locais, disse Bastante por telefone à AFP da cidadela vazia, onde está com uma equipe reduzida de vigilância.

"Não podemos expor os visitantes, não podemos expor nosso pessoal", acrescentou o responsável ao justificar a decisão das autoridades de fechar a cidadela de pedra.

Machu Picchu fechou as portas na segunda-feira por motivos de segurança devido a manifestações de moradores locais que afetam o serviço de trem que transporta os visitantes até a cidadela, localizada em uma área montanhosa da região de Cusco, no sudeste do Peru.

A Diretoria de Cultura de Cusco informou em um comunicado que o fechamento foi decidido "a fim de proteger a integridade de seus visitantes".

A medida foi adotada seis semanas após a reabertura da atração turística, que havia ficado fechada por quase oito meses devido à pandemia do novo coronavírus.

Os protestos dos habitantes de Machu Picchu e Ollantaytambo contra as empresas ferroviárias que prestam serviço na região começaram na última semana. Eles exigem tarifas mais baratas e maior frequência de trens na rota entre Cusco e Machu Picchu.

O trem é o único meio de transporte dos turistas que visitam a cidadela, mas também é muito utilizado por quem mora na região, onde operam apenas duas empresas: a Inca Rail e a Perú Rail.

As manifestações começaram pacificamente na última quarta, mas se intensificaram no final de semana com a ocupação da estrada, confrontos com a polícia e ameaças de ocupação da cidadela.

Machu Picchu havia aumentado sua capacidade em 40% em 1º de dezembro, indo para 1.116 visitantes diários, um mês após sua reabertura, em meio a uma gradual redução das infecções por covid-19 no Peru.

Antes da pandemia, entre 2 mil e 3 mil pessoas entravam por dia no parque. Desde o retorno até 31 de dezembro, a entrada é gratuita. Durante a visita, todos devem usar máscaras.

Machu Picchu ('Velha Montanha' em quéchua) foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1983 e, em 2007, foi escolhida como uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno em uma pesquisa online internacional.

A mítica cidadela, construída no século XV, colocou o Peru no mapa do turismo mundial em meados do século passado. O local foi "descoberto" pelo explorador americano Hiram Bingham em julho de 1911, embora alguns locais soubessem de sua existência.

Fonte: UOL 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

DEBATE ETERNO: AFINAL, QUEM INVENTOU O AVIÃO?

 

As invenções que mudam o curso da história não costumam surgir da noite para o dia. São resultado do trabalho árduo de diversos inventores e cientistas, que preparam o terreno para uma descoberta revolucionária. Entretanto, o crédito costuma ir para apenas uma pessoa, que, por inventividade, gênio ou até por sorte, acaba dando o passo decisivo.

A ele ou ela está garantida todas as glórias. Às vezes, porém, é difícil determinar quem merece ter seu nome imortalizado. É o caso da disputa entre Alberto Santos Dumont e os irmãos Wilbur e Orville Wright. Santos Dumont é louvado como Pai da Aviação no Brasil.

No resto do planeta, ele é um ilustre desconhecido: o título de desbravadores dos céus cabe aos Wright. Nos Estados Unidos, terra natal dos dois irmãos, houve a maior festança no centenário do primeiro voo da dupla, ocorrido em 1903 – três anos antes de Santos Dumont voar com seu 14 Bis.

Mas, afinal, qual das datas está correta? Quem foi o inventor do avião?

Para tentar responder a essas perguntas, é preciso voltar à virada do século 19 para o 20. “Dois grandes desafios se apresentavam com relação à conquista do ar: a dirigibilidade dos balões (ou seja, a capacidade de controlá-los) e o voo com aparelhos mais pesados do que o ar”, descreveu o físico Henrique Lins de Barros, autor do livro Santos Dumont e a Invenção do Voo.

A partir de 1890, as experiências se multiplicaram em ambas as frentes. Havia muita expectativa, o problema é que não existia uma definição para o voo controlado, nem do balão nem do “aparelho mais pesado do que o ar”.

Em 1898, foi criado o Aeroclube da França. Com o intuito de estimular a competição e ao mesmo tempo estabelecer marcos históricos definitivos, o Aeroclube criou prêmios que seguiam critérios básicos.

Para a dirigibilidade dos balões, foi definido que a experiência seria pública, realizada diante de uma comissão oficial e com data marcada, para evitar que fatores como condições climáticas favorecessem algum concorrente.

Até então, a prática comum era levar um cientista de renome para observar a demonstração e escrever um parecer, mas os relatos eram subjetivos e carregados de emoção.

Em outubro de 1901, o Prêmio Deutsch – oferecido pelo magnata do petróleo Henri Deutsch de la Meurthe, no valor de 50 mil francos – foi arrematado por Santos Dumont, após contornar a Torre Eiffel a bordo de um dirigível.

Sua principal inovação foi acoplar um motor de combustão interna movido a gasolina (que depois ele usaria nos aviões) a um balão de hidrogênio. Um a zero. No entanto, definir o que seria um voo de avião era um desafio bem maior.

O assunto era polêmico, e muitas pessoas nem sequer acreditavam na possibilidade de algo mais pesado do que o ar levantar voo. A descrença era comum até entre célebres cientistas. Em 1895, o físico e matemático britânico Lord Kelvin declarara que “máquinas voadoras mais pesadas que o ar são impossíveis”.

A ciência, porém, avança contrariando o impossível, e homens cheios de imaginação se lançaram ao sonho de voar. O francês Clément Ader montou um aeroplano em forma de morcego, que chegou a perder contato com o chão, sem ganhar, no entanto, altitude.

Samuel Langley, dos EUA, conseguiu fazer um pequeno modelo não tripulado voar. Entretanto, era Otto Lilienthal quem causava sensação na crítica especializada e, de longe, se tornara o preferido do público.

Voando em planadores inspirados nos pássaros, o alemão mostrou que um voo eficiente era possível. Para o Aeroclube francês, no entanto, planar não era o mesmo que voar. Ainda se discutiam os critérios para determinar o prêmio do primeiro voo de aparelho mais pesado do que o ar, quando, em 1903, chegou à Europa a notícia de que os Wright haviam realizado os primeiros voos controlados em um avião.

Porém, a única evidência era um telegrama escrito pelos próprios irmãos, contando terem voado contra ventos de cerca de 40 km por hora. Nos dois anos seguintes, os rumores eram de que eles haviam percorrido distâncias cada vez maiores, chegando a impressionantes 39 km. “Mas os irmãos não divulgavam uma foto sequer, e não permitiam que testemunhas neutras acompanhassem o experimento”, conta o físico Marcos Danhoni Neves.

Os franceses ignoraram o feito, por falta de provas concretas e também devido ao vento forte, que ajuda o avião a decolar. Estabeleceu-se que o voo deveria ser feito com tempo calmo, e que o aparelho fosse capaz de alçar voo sem ajuda de elementos externos (o vento ou uma catapulta, por exemplo).

Como no caso dos balões, a façanha deveria ser acompanhada por uma comissão oficial. E foi assim que, no dia 23 de outubro de 1906, foi realizado o primeiro voo homologado da História.

Nos campos de Bagatelle, em Paris, na presença de juízes e de uma multidão de curiosos, Santos Dumont pilotou seu 14 Bis por exatos 60 metros, a uma altura entre 2 e 3 metros. “O homem conquistou o ar!”, gritavam as pessoas em terra firme.

Pelo feito, o brasileiro recebeu prêmio de 3 mil francos oferecido por Ernest Archdeacon, um dos fundadores do Aeroclube. Menos de um mês depois, em 12 de novembro, ele voou ainda mais longe, 220 metros (a 6 metros de altura), batendo o próprio recorde.

Conduta diferente

Enquanto isso, os irmãos Wright mantinham segredo sobre sua invenção, apesar dos convites para que fossem demonstrá-la na Europa.

 “Um dos motivos pelos quais os americanos se recusavam a participar dos eventos franceses era que seu avião, para decolar, usava uma catapulta, com um peso de 700 kg que descia de uma torre e impulsionava o aparelho para o voo, algo totalmente fora do parâmetro dos europeus”, diz.

Outra razão para mistério era o medo de que sua ideia fosse roubada. Em 1904, a Feira Mundial de Saint Louis ofereceu um prêmio para quem conseguisse voar, mas eles não compareceram.

Em 1905 e 1906, tentaram vender o projeto da máquina voadora para o Ministério da Guerra dos EUA e depois para o governo francês, mas recusaram-se a fazer demonstrações e, por isso, o negócio não foi para frente.

A conduta dos Wright era bem diferente da de Santos Dumont, que publicava seus projetos. E, ao contrário dos americanos, que consideravam sua invenção relativamente acabada, o brasileiro estava sempre testando novas engenhocas.

Antes do 14 Bis, ele se esforçara para aperfeiçoar o dirigível. Até 1905, construiu mais oito aparelhos do tipo, sem contar um helicóptero que não decolou e um aeroplano que foi abandonado no meio.

Só então voltou-se para o desenvolvimento de uma máquina “mais pesada do que o ar”. O próprio Santos Dumont explicou mais tarde a razão da demora: “É que o inventor, como a natureza de Lineu, não faz saltos: progride de manso, evolui”.

Ele sabia que a decolagem dependia de um motor potente e, enquanto não havia um, seguia explorando os balões. Curiosamente, o primeiro projeto de Santos Dumont era parecido com um avião moderno, mas diferente dos aviões da época. Porém, devido às críticas, ele abandonou a ideia.

A cautela estava ligada também a um evento que abalou os pioneiros da aviação: a morte de Otto Lilienthal, cujo avião se espatifou em 1896. “O episódio lançou uma onda de medo entre os inventores, que resolveram adotar a configuração chamada canard”, conta Henrique.

Canard quer dizer “pato” em francês e refere-se à posição das asas na parte de trás e o bico na frente. Nessa configuração, o profundor – leme horizontal que ajuda a erguer o nariz da aeronave para que ela possa levantar voo – fica na frente, enquanto nos aviões atuais é localizado na traseira.

Os Wright foram os principais divulgadores do canard e influenciaram o próprio Santos Dumont, que adotou a configuração no 14 Bis.

Em 1908, os Wright finalmente levaram o Flyer para a Europa e apresentaram pela primeira vez as fotos do voo de 1903. “A essa altura, todos estavam interessados nos recordes de distância, e os Wright, que de fato tinham desenvolvido melhor a parte de aerodinâmica e controle no ar, sabiam que, nesse ponto, poderiam se sair bem”, diz.

Os americanos causaram sensação no Velho Mundo com voos de mais de 100 km. Tornada pública, sua invenção ajudou a impulsionar o desenvolvimento da aviação, que atingiria um marco com a travessia do Canal da Mancha (entre França e Inglaterra) pelo francês Louis Blériot, em 1909.

Inovações importantes

Na comparação, do ponto de vista aerodinâmico, o avião brasileiro sai perdendo. Baseado no conceito das células de Hargrave (caixotes vazados como em pipas japonesas), o 14 Bis acabou ultrapassado.

Porém, trouxe inovações importantes: o trem de pouso e os ailerons, que permitem a inclinação para os lados, conferindo maior estabilidade. E há quem defenda que a aeronave dos Wright nem sequer possa ser considerada um avião.

“O que eles inventaram não passa de um planador motorizado. Muita gente se surpreende ao saber sobre a catapulta”, diz Marcos.

A polêmica está cercada de ufanismo, e é provável que jamais possamos dizer com certeza quem foi o primeiro homem a voar. Porém, há um fato curioso. Uns 100 anos depois do feito de Santos Dumont, o 14 Bis voltou a ganhar os céus.

Ou quase: trata-se de uma réplica, construída pelo coronel paulista Danilo Flôres Fuchs, que pilotou seu avião diversas vezes, no Brasil e na França. “Ele é bastante estável e é possível atingir distâncias maiores de 1 km”, afirmou o aventureiro na época.

Nos EUA, sonha-se fazer o mesmo com o Flyer. Existe até uma fundação, a Discovery of Flight Foundation, que se dedica a estudar a façanha dos Wright, construindo réplicas e tentando fazê-las voar. Ainda não conseguiram.

Fonte: AH


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

MITOS E MÉTODOS PECULIARES: A BIZARRA SAGA DA MENSTRUAÇÃO NA IDADE MÉDIA

 

Os tabus que cercam a menstruação ainda são grandes nos dias de hoje, mas na Idade Média eles com certeza eram ainda maiores. A misoginia, que muitas vezes impedem as mulheres de conhecerem os próprios corpos, unida ao conservadorismo de muitas sociedades, fizeram com que o tema fosse praticamente censurado.

E o desconhecimento leva à ignorância. O período menstrual estava cercado de mitos e algumas ideias bizarras sobre o que ele representaria. Algumas dessas narrativas imaginativas sem comprovação científica ainda existem nos dias de hoje: quem nunca ouviu que não deveria lavar o cabelo enquanto estivesse menstruada?

Na Idade Média, um pensamento que cercava a menstruação era a de que seu sangue era completamente venenoso. Muitos homens repudiavam esse momento, acreditando que seu sangue teria um poder do mal tão forte capaz de apodrecer colheitas e vinhos, além de sua capacidade de supostamente deixar animais em estado de loucura.

Por esse motivo, sexo durante esse período não era indicado. Por mais que se tratasse apenas de um mito popular, pessoas de fato consideravam que o fluxo de sangue das mulheres era tóxico. Isso fazia com que o ato sexual fosse desencorajado, porque acreditava-se que o sangue poderia queimar o pênis do homem.

Somente a partir desse discurso que considera o fluxo menstrual como algo tóxico e venenoso é possível perceber que a relação das moças com esse período provavelmente não era uma das mais fáceis. Ora, se o ato de menstruar era considerado impuro, algo sujo e poluído, como poderiam entendê-lo sem preconceitos?

A “ciência” da época também não ajudava. Na verdade, ela piorava toda a situação. Alguns considerados “especialistas” do período julgavam que a menstruação era uma doença que aflorava no corpo da mulher a cada mês. Nada sobre ela fazer parte do ciclo reprodutivo do organismo feminino.

Nessa questão, alguns médicos do período também supunham que se uma mulher não passasse por esse processo, o sangue que deveria sair pela vagina teria que sair de outra forma. Então, eles removiam sangue diretamente das veias da moça que não teve seu fluxo daquele mês. Esse método era aplicado logo após a tentativa de fazer o sangue vir colocando lã com pepino e leite dentro de seu órgão genital.

Como, então, as mulheres de fato lidavam com esse período? Provavelmente com muita vergonha e constrangimento. Se hoje temos absorventes, coletores menstruais e até mesmo calcinhas absorventes, naquela época não havia nada nem ao menos parecido. O que muitas faziam era usar tecidos como uma espécie de absorventes.

O material escolhido geralmente era o linho por sua maior capacidade de absorção. Mas, ainda assim, existe uma questão: onde colocar o tecido, sendo que não existiam nem ao menos calcinhas na época? Bom, as moças provavelmente o penduravam com algo parecido com o cinto em sua cintura e pernas. 

Esse método com certeza não era muito seguro, o que fazia com que os tecidos muitas vezes caíssem ao chão, revelando o sangue menstrual. Episódios como esse faziam com que os “absorventes” improvisados fossem chamados de “tampão monstruoso” por muitas pessoas.

Algumas mulheres, no entanto, não usavam esse recurso para conter o fluxo da menstruação, o que fazia com que o sangue apenas escorresse por suas pernas. Pesquisadores apontam que a popularidade de roupas de cor vermelha durante a Idade Média se decorresse desse fato. Também era habitual que elas carregassem noz-moscada ou flores secas para esconder o cheiro. 

Nos dias de hoje, as coisas mudaram. Mulheres podem escolher entre diversos tipos de absorventes e métodos de contracepção que às vezes até mesmo impedem a menstruação de acontecer. Ainda assim, o tabu acerca do tema ainda não sumiu totalmente, o que revela que a misoginia ainda está presente na sociedade.

Fonte: AH


domingo, 13 de dezembro de 2020

AS INTENSAS TRANSFORMAÇÕES NO BRASIL COM CHEGADA DA FAMÍLIA REAL PORTUGUESA

 Era um miserê de dar dó o Brasil que a família real conheceu em janeiro de 1808, ao desembarcar em Salvador. Subdesenvolvida e sem a mínima infra-estrutura, a colônia não tinha mudado muito desde que as primeiras feitorias foram instaladas, no século 16. O território era imenso, mas sem cuidados. Daqui, Portugal tirava quase todo o seu sustento.

Mesmo para a corte parasita e cheia de corruptos que dom João trouxe a tiracolo, o Brasil não parecia digno de se tornar a sede da monarquia portuguesa. Era preciso mudar o estado das coisas, e rápido.

Afinal, o príncipe regente tinha chegado para ficar, não tinha a menor ideia de quando poderia voltar à Europa. Suas prioridades ao pisar na colônia só poderiam ser as óbvias: criar condições de vida para a corte e mecanismos que permitissem governar todo o império a partir de sua nova capital, o Rio de Janeiro.

Logo de cara, uma semana depois de desembarcar em Salvador, dom João abriu os portos brasileiros às nações amigas. Era o fim do Pacto Colonial – o Brasil estava liberado para manter comércio com outros países, sem a interferência portuguesa.

Em março de 1808, já instalado no Rio de Janeiro, o príncipe regente liberaria também a criação de fábricas, proibida desde 1785. Quatro anos mais tarde, uma pequena siderúrgica já estava funcionando na colônia.

Em 1820, outra seria inaugurada. “Era um embrião de indústria, que enfrentava a competição de produtos baratos que vinham da Inglaterra. Mas foi o primeiro passo”, diz Renato Marcondes, historiador.

Dom João também deu um jeito na Justiça brasileira. Depois de 300 anos com um sistema judiciário bastante limitado, foi instalada na colônia a Casa de Suplicação – uma espécie de Supremo Tribunal do império, instância mais alta da Justiça portuguesa. Dali em diante, qualquer disputa judicial, por mais poderosos que fossem os envolvidos, poderia ser resolvida na própria colônia.

Outra invenção importante do príncipe regente foi o Banco do Brasil. Essa, porém, não deu tão certo quanto as outras, pelo menos em seus primeiros anos de vida. Embora tenha lançado por aqui as fundações de um sistema financeiro, o banco era fraco e ninguém acreditava muito nele.

Funcionava apenas como gerenciador de depósitos e, principalmente, como casa da moeda. O dinheiro emitido não tinha lastro. Prestava-se, sobretudo, a financiar os gastos do governo e da corte.

A instituição era tão desacreditada, que tudo custava mais caro se o pagamento fosse em dinheiro. Quando dom João voltou para Portugal, em 1821, levando toda a grana dos cofres, o Banco do Brasil simplesmente quebrou.

Se dom João não tivesse fugido para cá, o Brasil poderia ter se desintegrado, como aconteceu com a América espanhola. Hoje, talvez não fosse um, mas vários países. Quando pisou em território brasileiro, o príncipe regente encontrou um amontoado de capitanias isoladas umas das outras. Isso não interessava à coroa portuguesa.

“A família real dependia, para sobreviver, da manutenção do território brasileiro unificado, já que tinha perdido Portugal para Napoleão”, diz a historiadora Luciana Lopes.

Para garantir o controle sobre as capitanias, dom João saiu construindo estradas a torto e a direito. Resultado: o comércio entre regiões distantes aumentou e os laços entre as populações começaram a se estreitar. 

Ainda que nada tivesse feito pela economia brasileira, a simples presença da corte no Rio de Janeiro já promovia o desenvolvimento de toda a colônia. O aumento da demanda por todo tipo de insumo, provocada pelos 15 mil portugueses que subitamente se instalaram na cidade, fazia o comércio girar como nunca.

“A necessidade de alimentos levou a um crescimento muito grande na produção em várias regiões”, diz Marcondes. “No ano de 1806, o Vale do Paraíba, em São Paulo, enviou 7,7 mil cabeças de gado para o abate no Rio de Janeiro. Em 1810, esse número havia saltado para 13,5 mil cabeças.”

A abertura de estradas, que também era proibida até a chegada da corte, agora estava autorizada. Aquelas que já existiam foram melhoradas. Mas eram poucas. A nova sede do império precisava de mais. Elas foram abertas principalmente nas regiões que hoje correspondem a Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

E isso tem tudo a ver com o fato de, hoje, a região Sudeste ser a mais desenvolvida do país. “Antes, abrir estradas era proibido porque a Coroa temia o contrabando de ouro e diamantes”, explica a professora Luciana Lopes.

O desafio de abastecer a capital do império fez florescer o comércio de cabotagem, que estimulou o desenvolvimento de várias cidades costeiras. Produtos de lugares distantes – como charque do Rio Grande do Sul e madeira da Bahia – chegavam ao Rio de Janeiro pelo mar.

“A vinda da família real não foi exatamente o início do desenvolvimento econômico, pois já havia alguma atividade na colônia”, diz Luciana. “Mas funcionou como um grande catalisador, acelerando as transformações.” Esse desenvolvimento acelerado da colônia acabaria se revelando um tiro no pé de dom João. Em pouco tempo, o Brasil começaria a sentir-se totalmente preparado para se aventurar numa “carreira solo”. 

Contudo, é necessário ressaltar a questão do tráfico de escravos. De 1808 a 1821, algo entre 440 mil e 500 mil escravos foram trazidos da África ocidental para cá – número maior que o de qualquer outro período da escravidão. Enquanto isso, a maioria dos países europeus 'proibia' o tráfico, incluindo a Inglaterra, grande aliada de Portugal.

Embora dissesse o contrário aos britânicos, dom João nunca pensou em abolir a escravidão. Nem poderia. Afinal, toda a economia da colônia estava baseada no trabalho escravo. Acabar com ele provavelmente significaria decretar a falência do Brasil. Mas havia interesses particulares da corte envolvidos na história.

E foi diante do desumano estado dos escravizados que a elite brasileira enriquecia e comprava títulos de nobreza. A venda de títulos garantia uma boa renda a dom João. E ainda agradava à elite, cujo apoio era fundamental para o príncipe regente.

Fonte: AH

sábado, 12 de dezembro de 2020

MAIS ANTIGA IMPRESSÃO EM SELO DE ARGILA É ENCONTRADA EM ISRAEL

Há quase 40 anos, o professor Yigal Ronen, da Universidade Ben-Gurion do Negev (BGU), comprou um antigo selo em um mercado beduíno em Beersheba, em Israel. Ele pagou muito pouco e, por isso, acreditava que o item era falso. Mas não poderia estar mais errado em sua análise.

Depois de anos de estudo no objeto, pesquisadores agora afirmam que aquele é a mais antiga impressão feita em um selo de argila já encontrada na região. Para os arqueólogos, o selo encontrado há décadas pelo professor foi um dos primeiros a serem produzidos daquela maneira.

Afirmado como “o selo mais antigo descoberto em Israel”, acredita-se que o item remonte à Idade do Ferro, tendo pelo menos 2.300 anos de idade. Ele é muito pequeno, medindo apenas 23,4 milímetros por 19,3 mm. 

Além de ser excepcionalmente antigo, os especialistas também afirmaram que é muito provável que o selo tenha origens reais. Eles supõem que o item foi

Descobertas arqueológicas milenares sempre impressionam, pois, além de revelar objetos inestimáveis, elas também, de certa forma, nos ensinam sobre como tal sociedade estudada se desenvolveu e se consolidou ao longo da história. 

Sem dúvida nenhuma, uma das que mais chamam a atenção ainda hoje é a dos egípcios antigos. Permeados por crendices em supostas maldições e pela completa admiração em grandes figuras como Cleópatra e Tutancâmon, o Egito gera curiosidade por ser berço de uma das civilizações que foram uma das bases da história humana e, principalmente, pelos diversos achados de pesquisadores e arqueólogos nas últimas décadas.  

Fonte: AH

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

PARTES DESCONHECIDAS DO PALÁCIO DE HERODES, O GRANDE, SÃO REVELADAS POR ARQUEÓLOGOS

 

Desde quando o túmulo de Herodes, o Grande, foi descoberto perto de Belém, no deserto da Judeia, há mais de dez anos, os arqueólogos vêm realizando escavações para revelar detalhes do gigante palácio que o rei enterrou antes de sua morte, em 4 a.C.. A informação foi anunciada pela AFP e divulgada pelo jornal The Times of Israel.

Após muitos esforços, o público poderá visitar partes do famoso Herodium, o palácio que Herodes mais gostava e que decidiu batizar com seu próprio nome. No topo de uma colina, com vista para a entrada de Jerusalém, a fortaleza é uma destinação turística disputada — e, a partir do próximo domingo, 13, será mais ainda.

Além de anunciar que o local abrigará visitantes, os pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém revelaram partes que estava desconhecida até o momento. Muito mais que a sepultura do rei de Israel, Herodium “é um laboratório arqueológico incomparável”, disse o arqueólogo e chefe das escavações Roi Porat.

Os turistas poderão conhecer uma grande escadaria que leva do túmulo ao saguão principal. Este, então, possui três níveis de arcos de suporte e ricos detalhes decorativos. Afrescos com listras com as cores castanho, vermelho, preto e verde, imitavam painéis de mármore.

Já na outra parte do saguão, do lado oposto, fica o teatro privado de Herodes, com capacidade para 300 pessoas. Essa região do palácio contém, ainda, uma cabine e sala de visita. No local, pinturas de janelas abertas retratavam a conquista do Egito por Marco Vipsânio Agripa — que conheceu a fortaleza em 15 a.C.

Sobre a sala luxuosa, Porat explica: “Antes disso, Herodes seguia a tradição judaica que evitava imagens de animais e pessoas, mas aqui tudo era possível”. E acrescenta que “é realmente uma cápsula romana na Judéia”.

Descobertas arqueológicas milenares sempre impressionam, pois, além de revelar objetos inestimáveis, elas também, de certa forma, nos ensinam sobre como tal sociedade estudada se desenvolveu e se consolidou ao longo da história. 

Sem dúvida nenhuma, uma das que mais chamam a atenção ainda hoje é a dos egípcios antigos. Permeados por crendices em supostas maldições e pela completa admiração em grandes figuras como Cleópatra e Tutancâmon, o Egito gera curiosidade por ser berço de uma das civilizações que foram uma das bases da história humana e, principalmente, pelos diversos achados de pesquisadores e arqueólogos nas últimas décadas.  



Fonte: AH


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O DIA EM QUE TENTARAM MATAR O PAPA JOÃO PAULO II — E COMO A URSS FOI ENVOLVIDA NA HISTÓRIA

 

João Paulo II acumulou diversas histórias durante a sua vida. Ele foi condecorado como papa e chefe da Igreja Católica em 16 de outubro de 1978, cargo que ocupou até a sua morte em 2005.

O seu papado foi o terceiro maior documentado na história da humanidade, sendo também aclamado como um dos líderes mais influentes do século 20.

No entanto, a sua personalidade também causou certa rejeição, e isso foi o suficiente para que ele fosse alvo de uma tentativa de assassinato.

Era 13 de maio de 1981, uma quarta-feira, quando um homem identificado como Mehmet Ali Ağca, acusado posteriormente de fazer parte de um movimento terrorista da Turquia, grupo militante fascista Lobos Cinzento, entrou na Praça de São Pedro, no Vaticano, com uma arma.

Naquele dia, seu objetivo era um só: matar o Santo Padre num dia em que ele se preparava para discursar em meio a uma multidão. O terrorista conseguiu atingir João Paulo II, que foi baleado duas vezes, sendo gravemente ferido.

No mesmo minuto, as pessoas presentes no local assistiram a cena horrível que causou uma hemorragia no papa. Ağca também foi rapidamente capturado pelas autoridades do Vaticano após o ato que escandalizou o mundo.

O Papa então foi levado imediatamente a Policlínica Gemelli. Ainda no caminho para o hospital, ele perdeu a consciência, o que deixou todos aterrorizados, afinal, naquele momento acreditavam que a santidade não escaparia da situação com vida. 

No entanto, quando chegaram à Instituição, João Paulo II acordou consciente por alguns minutos antes da operação e fez um pedido especial aos médicos.

Ele não queria que, durante a operação, o seu Escapulário de Nossa Senhora do Carmo fosse removido, e assim foi feito. Após sair são e salvo das cirurgias,

Em 13 de maio de 1983, o papa visitou pela primeira vez o Santuário de Nossa Senhora de Fátima para agradecer à santa de tê-lo livrado do momento de pânico. Lá ele ofereceu à Igreja uma das balas que o atingiu no incidente, que foi colocada na coroa da imagem da virgem, e permanece lá até os dias de

Como era de se esperar, após atirar contra o líder religioso e depois de passar por um tribunal italiano, o criminoso foi condenado à prisão perpétua. O Santo Padre fez questão de visitá-lo.

Eles conversaram por aproximadamente 20 minutos em uma sala privada, e depois disso, Paulo II disse que perdoou o ato. O então presidente da Itália, Carlo Azeglio Ciampi, também concedeu perdão o homem, a pedido do religioso. Depois disso, Ağca foi reportado para seu país de origem, onde permaneceu preso.

O papa João Paulo II viria a falecer em 2 de abril de 2005. Em memória ao seu legado, foi aberta uma comissão parlamentar italiana, que seria capaz de fazer uma revisão no caso de tentativa de homicídio.

O parlamento então concluiu que a União Soviética teria sido a responsável por encomendar o atentado contra a vida de João Paulo II, como forma de protestar contra os apoios que a organização Solidariedade, movimento católico de trabalhadores pró-democracia na Bulgária comunista, recebia do Vaticano durante a sua chefia.

O relatório apontou que os departamentos de segurança da Bulgária soviética ajudaram a esconder o caso, para que a ação da URSS contra o papado não fosse descoberta.

Ainda conforme o relatório, a Inteligência militar soviética teria organizado a tentativa de assassinato. Ao saber da acusação, a Rússia se posicionou contra, e declarou que na época nenhum órgão da URSS esteve envolvido no atentado, chamando a acusação de "absurda".

O papa, por sua vez, quando ainda estava vivio, declarou em uma visita à Bulgária que não acreditava que o país tivesse sido o responsável pelo evento violento.

No entanto, o seu secretário, Cardeal Stanisław Dziwisz, alegou em seu livro 'A Life with Karol', que ele, na verdade, teria sim se convencido sobre o envolvimento da ex-União Soviética por trás da sua tentativa de assassinato.

Fonte: AH